Ah, os cafés!

Os cafés são lugares especiais, são sensoriais, são multifuncionais, são experienciais.

Bem, hoje, todos os negócios são (ou deveriam ser) assim, pois, mais do que nunca, as sensações e os sentimentos impactados (para o bem ou para o mal) formam a base para consolidação de uma marca. Uma grife deixou de ser apenas visual, para ser sensorial e muita gente ainda não se deu conta disso.

Ah, Porto Alegre!

Porto Alegre, quatro de setembro, Rua da Praia. Não fosse a sujeira, o desleixo e a insegurança, o Centro de Porto Alegre seria um local incrível. Um mix de história, de glamour e de referências do comércio local. Não é preciso andar muito para notarmos o refinamento do conceito de alguns estabelecimentos bem antigos, que trazem à minha imaginação romântica, quais pessoas ilustres passaram por ali e sentaram nos cafés para uma boa prosa de final de tarde. Eu tive a felicidade de, por algumas vezes, poder ver o magnífico Mário Quintana, andando devagarito, observando tudo o que se passava ali na Praça da Alfândega. Uma pena, que na época, o meu interesse era chegar rápido ao Rua da Praia Shopping. Era novidade!

Histórias de Cafés

Fazia tempo que eu não passava pelo Centro com calma, ainda mais naquela parte da Rua da Praia, em que ainda tem uma ótica atrás da outra. Porém, ontem, o trio fome, fim de tarde e vontade de café, me fez prestar atenção nas opções gastronômicas próximas.

Rapidamente, encontrei um estabelecimento meio fecha-não fecha, parecia que tinha café. O nome sugeria ser uma daquelas confeitarias clássicas, mas o ambiente não apresentava muito requinte. O fator fome me fez ignorar a decepção. Em pé, pedi o menu à moça do caixa, que com jeito de quem estava insatisfeita com a minha chegada, mostrou a tabela de preços na parede. Nisso, vi cinco opções caras¹ de lanchinhos bem comuns, quatro opções de cafés e uns poucos docinhos que estavam no balcão (ok, pode ser que a estratégia de gestão de estoque da empresa justifique a sensação de escassez percebida pelo cliente. Eu buscaria uma alternativa melhor).

Já bem desestimulada, reparei na grande quantidade de prêmios expostos na mesma parede do menu e pensei duas coisas, o produto tem que ser sensacional e os prêmios estão sustentando o local. A experiência já se ia por água abaixo. Ainda mais, com a sensação de estar sendo observada pelas três atendentes cansadas que esperavam pela minha difícil decisão.

Naquele momento, eu só queria garantir um café com leite e um pão de queijo. Acabei pedindo mais um pastelzinho de Belém. São vinte e dois reais, informou a caixa. Reforcei o pensamento de que o produto seria algo divino. Alcancei o cartão do banco para a atendente, e??? “Pagamento só em dinheiro, senhora.”, foi o que ouvi.

Ali foi o ponto final da nossa precária relação. Quem anda com dinheiro? Ainda mais no Centro de POA?! Valorizei o meu tempo, o meu dinheiro e o meu merecimento por algo melhor e saí dizendo: Esquece!

Valor agregado!

Uns 50 passos à frente, vejo uma fachada charmosa, extremamente convidativa. Parecia que tinha café. Graças a Deus, entrei. Ambiente incrível, organizado, espaçoso, aconchegante. Fiquei meio zonza me ambientando e logo achei uma quantidade de máquinas de cartão sobre o balcão. Então, uma atendente veio gentilmente me oferecer ajuda. Explicou o self service com salgados e doces variados.

Me servi e pesei o prato, enquanto outra atendente me informava que o café seria servido na mesa e que eu poderia pagar na saída. Dentre outros aspectos, o “pagamento na saída”, confere confiança e acolhimento, fatores imprescindíveis para uma relação de valor. E convenhamos, depois da experiência anterior, a forma de pagamento se tornou um diferencial. Ainda mais, no Centro de POA.

Ao me dirigir para a mesa e sentar naqueles sofazinhos duplos e estofados, reparei nos detalhes da decoração impecável e quase morri de amor ao perceber que a música ambiente vinha de um piano que estava sendo tocado ao vivo.

Atendentes motivados circulavam pelo salão, a senha do wifi estava na mesa. Eu ficaria ali por horas! Ainda mais, porque há privacidade entre uma mesa e outra, que logo me sugeriu como ponto de encontro para negócios.

Delícia de comida e café quente trazido com um sorriso no rosto que também, me deu tchau após eu pagar a conta com cartão.

Não vi quadros de prêmios nas paredes da Marzana Confeitaria. Mas, me tornei sua fã. Acredito que o compromisso com a conquista diária de fãs, seja mais valiosa e promissora do que prêmios pontuais.

Think About:

Fui embora feliz e surpreendida, mas me perguntando: Como os prêmios foram parar na parede do outro estabelecimento? Será que os produtos são incríveis, mas a experiência proporcionada não se atualizou para o novo consumidor? Por quanto tempo um gestor apático vai conseguir sustentar um aluguel astronômico e atendentes infelizes. É preciso acordar logo, para não ter que acusar a crise e pendurar os prêmios na sala de casa.

¹ Percepção exclusivamente pessoal, comparando preços médios do mercado e os serviços do estabelecimento em questão.

0 replies

Leave a Reply

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Têisi Colares

Têisi Colares

Founder

Entusiasta da inovação, amante da simplicidade e de todas oportunidades que isso traz para os negócios.
Acredita que os negócios são feitos de pessoas para pessoas e preza pelas relações de valor entre elas, para que todos ganhem.
Foco: Desenvolvimento e sustentabilidade dos negócios, através da criatividade e do relacionamento estratégico.
Formação: Constante.